Antes e Depois – Antes de mesmo de Ir

(Prólogo da Viagem à Índia)

Bom, todos nós temos particularidades em nossas personalidades, e uma das minhas principais características é que sou muito exagerada para contar detalhes! hahahaha.

Devo confessar que também reconheço esse certo “exagero” da minha parte, e juro que faz parte dos meus planos tentar melhorar este ponto em mim, mas…. se vamos falar aqui sobre o antes, nada mais justo do que começar pelo “começo do começo”. (Não é?! hahaha).

O começo antes do Começo.

Os vedas e as 4 leis da espiritualidade hindu.

Assim como os Cristãos seguem a Bíblia, os Hindus seguem os preceitos dos Vedas. Os Vedas (“Rig Veda”, “Yajur Veda”, “Sama Veda” e “Atharva Veda”) são os livros / as escrituras sagradas compostas por ensinamentos em forma de hinos, versos e mantras. Eles auxiliam na orientação da espiritualidade e na verticalização ideal das ações humanas. Além disto, os Vedas também são considerados pelos historiadores os primeiros livros sagrados da história da humanidade.

Quando comecei me aprofundar mais na cultura indiana, por sugestão de Bharat Sharma (guardem bem este nome, pois todo este texto vai te fazer entender como ele entrou na minha vida) tive a oportunidade de ter  contato com mais duas obras magníficas: “O Mahabharata” e “Bhagavad Gita. Eu preciso dizer, são ambos incrivelmente poderosos e profundos. Em resumo, todas as obras acima se conectam e são uma perfeita oportunidade de aprendizado. Gosto de defini-las como um mergulho profundo dentro da alma humana por meio das bases culturais indianas.

Há certas coisas que nós apenas entendemos quando vemos ou vivemos. Eu precisei ser parte disto, eu precisei viver dentro de uma família indiana para entender sua rotina funciona, entender qual o papel da mulher na casa (e acreditem não tem nada de submissa como vemos nas TV’s por meio das novelas) e também para entender como pensam os hindus.

Antes mesmo de ir à Índia, eu já acreditava que tudo nas nossas vidas acontece por algum motivo, que tudo está conectado e que o destino de cada um de nós é traçado desde a nossa concepção no ventre materno.
Coincidência ou não, a cultura indiana tem um pensamento muito de encontro a este que compartilho, e na Índia os acontecimentos da vida são encarados das seguintes formas:

“A Pessoa que vem é a pessoa certa” .

Todas as pessoas que cruzamos em nossos caminhos vem até nós com o destino de ser um aprendizado ou uma ponte em nossas vidas; e quando este ciclo se completa, os vínculos com estas pessoa se encerram ou elas simplesmente distanciam.

“Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido”.

As coisas são como elas são, e acontecem como devem acontecer. Seja isso prazeroso ou doloroso, a medida dos acontecimentos são exatamente a medida que o destino reservou para cada um deles.

“Toda vez que você inicia algo é o momento certo”.

Tudo aquilo que começamos, também começamos no momento certo, pelas motivações certas. Até mesmo aquilo que não concluímos porque algo novo surgiu, só surgiu porque era o momento certo.

“Quando algo termina, termina”.

Uma paixão que vira amizade, termina como paixão, se torna amizade. Um ciclo se completa, se encerra  e um ciclo novo se inicia. Obviamente, se estivermos falando da morte, podemos encarar como algo que se encerra nesta vida para aqueles que partem, porém para aqueles que ficam, algo novo surge. Ou seja, todo fim é um fim para que algo novo venha.

Gênesis (Adoro essa referência para criar impacto dramático na narração – hahaha)

Sábado, 10 de Dezembro de 1988, 14h42 (2h42 pm). A Cidade de São Paulo (Brasil) recebia mais uma habitante, eu!. A lenda diz que meus primeiros 9 dias de vida foram bastante agitados, isto porque minha mãe biológica por algum motivo (que eu não sei e jamais quis saber) desistiu das suas responsabilidades e deveres como minha genitora, e como nada acontece por acaso, o destino fez com que os caminhos dos meus pais adotivos se encontrassem com o caminho desta mulher. 

Com 10 dias de vida eu já tinha uma família e eles que a muito tempo queriam um bebê, me tinham!

O nome Laila foi escolhido pelo meu pai. Tirou de algum filme que nunca soube me dizer qual. Laila significa: “Escura como a noite” (a noite escura que procura pela iluminação da lua).

Meu pai, era caminhoneiro. Minha mãe, trabalhou muitos anos como revendedora, mas depois de um certo tempo começou a trabalhar na limpeza e nos cuidados de uma casa de família.

As lembranças da minha  infância se misturam com os prazeres das aventuras, das descobertas de um mundo com outras crianças. Se misturam nas memórias com meus grupos de amigos, dos nossos brinquedos, das nossas brincadeiras, nossos momentos de diversão, algumas brigas e joelhos machucados. 

Quando se é criança, a vida não te entrega muitas responsabilidades, isto porque na minha opinião a vida guarda todas elas para quando formos adultos. Então quando se é criança, a vida apenas exige de nós que possamos aprender as coisas enquanto nos desenvolvemos.

As surpresas da vida no processo de amadurecimento.

Aprendendo sobre o fim.

Passada a minha adolescência e o meu comportamento teimoso, ainda na minha passagem para a fase adulta os meus pais decidiram seguir caminhos diferentes. Eu segui o caminho ao lado de minha mãe. Nossa casa ganhou vida!. Minha mãe voltou a sorrir, e consequentemente ao vê-la sorrindo meu coração se enchia de alegria também.

Comecei a trabalhar e conclui minha graduação na universidade. Anos mais tarde, minha mãe não estava se sentindo bem. Fomos ao hospital, descartaram qualquer possibilidade de doença grave e nos mandaram voltar para casa. Algo estava errado, como não puderam ver?. Nós insistimos em visitar outro hospital, lá a equipe médica a manteve internada para mais exames. 

Em uma conversa particular eu recebi do médico de plantão o diagnóstico de neoplasia. Pedi a ele e a equipe que não contasse nada sobre o diagnóstico para a minha mãe. Eu não conseguia imaginar ela recebendo uma notícia como esta depois de tantos anos tentando sorrir. Como eu poderia permitir que tirassem o sorriso de seu rosto? 

O Tumor começou no pulmão direito e espalhou-se para o cérebro. A luta era constante. Eu me fiz tão forte na frente dela, mas quando eu chegava em casa, era uma mistura de sentimentos. Eu não queria que ela percebesse minha preocupação ou tristeza. 

Embora os médicos tenham me falado que poderiamos tentar fazer a radioterapia ou até mesmo a quimioterapia, meu coração sabia que era apenas mais um procedimento que precisavam fazer e dentro de mim eu já me preparava para a despedida.Eu tive exatos 46 dias. 

Este foi exatamente o tempo que tive para fazê-la sorrir enquanto nos despedíamos. Eu confesso que foi um processo muito doloroso, mas eu sabia que estava acontecendo como deveria ser e que eu não tinha poderes nenhum para modificar esta realidade. Me cabia apenas aceitar.

Ausência do eu

Vazio

A dor de perder alguém que amamos é sem dúvida algo que nos acompanha para o resto de nossas vidas. Consigo lembrar da voz dela, do sorriso, do seu jeito de falar comigo, do sabor da sua comida, e por mais que eu me esforce, por mais que eu siga suas receitas com os mesmos ingredientes e medidas, jamais terá o mesmo sabor. 

Hoje eu posso dizer que quando perdi minha mãe, parte de mim se encontrou e outra parte se foi junto com ela. A pessoa divertida que eu costumava ser continuou aqui, mas talvez por medo de perder mais pessoas, comecei a viver para fazer as pessoas sorrirem.

Segundo a psicóloga Thaiana F. Brotto: “Pessoas com necessidades de agradar podem se tornar inseguras, depressivas, ansiosas, ter baixa auto estima e não ter condições de decidir por si, precisando sempre da opinião do outro.” 

Eu gosto de ajudar pessoas, gosto de fazer pessoas rirem (mesmo quando o assunto é sério). 

Eu queria me sentir viva, queria mostrar para mim que a vida continuava e ao mesmo tempo queria fazer com que mais mulheres também descobrissem a beleza dentro delas.

Antes - Laila

Eu não vi as coisas mudando ao meu redor, muito menos percebi quando comecei a guardar todas elas dentro de mim. Cheguei a pesar quase 100 quilos e não percebi isso acontecer.  O meu sorriso não era verdadeiro, meu corpo não me agradava, muito menos as minhas ações, mas eu não enxergava isso. Eu aceitava a viver a felicidade dos outros, mas não percebia que aquilo não me pertencia. 

Índia

A luz vinda do oriente.

“Ah, look at all the lonely people… All the lonely people, where do they all come from?… All the lonely people, where do they all belong?…”.

(Ah, veja ao redor das pessoas solitárias… Todas as pessoas solitárias, de onde elas vêm? Todas as pessoas solitárias, A que lugar elas pertencem?”)

O cotidiano muitas vezes nos impede de ter um olhar mais sensível para as pessoas, para as coisas. Ligamos as nossas vidas no “Piloto automático” e muitas vezes só percebemos que algo está errado depois que isto já se tornou maior. 

Era muito difícil viver pra mim, porque eu não sabia quem eu era. Chegou um momento em que eu achava ser alguém, mas no fundo estava vivendo debaixo de uma máscara, não estava sendo sincera com as pessoas que eu amava, muito menos comigo mesma.

Eu precisava me encontrar!

Muitas pessoas viajam à Índia por diferentes motivos. E toda essa minha curiosidade sempre me fez sentir que um dia deveria ir a Índia. Era preciso descobrir o motivo.

Em 1968, após turnês exaustivas, os integrantes da banda The Beatles se viram vazios espiritualmente e perdidos dentro do egocentrismo após a conquista da fama. A busca por respostas (pessoais) nas terras do oriente rendeu à banda a composição de 48 músicas e o lançamento de um álbum neste mesmo ano. 

Eu sinceramente acredito que todas as viagens de todas as pessoas que visitam este país de um jeito ou de outro acabam sendo atravessadas pela espiritualidade e mistérios da sabedoria hindu. No meu caso, a fui tocada por toda essa magia e sabedoria antes mesmo de ir.

Contato

Pessoas bastante próximas a mim também estavam se planejando para visitarem o mesmo destino, no entanto as datas das nossas viagem não eram as mesmas. Eles se planejavam para viajar em Março, e eu em Dezembro. 

Como eu já tinha algumas informações, sabia que era necessário ter um visto autorizando a minha entrada e permanência no país. Ofereci à eles a minha ajuda, afinal de contas ao ajudá-los estaria obtendo informações que também seriam de grande importância para mim.

A página de busca do Google, me levou até uma central de informações e requerimentos para vistos. Comecei a fazer o requerimento em nome de um dos dois viajantes que iriam à Índia sem mim.  Em determinado momento o formulário me pediu para inserir endereço de algum lugar onde ficariam hospedados; então para meu desespero eles ainda não haviam feito reservas nos hotéis. Consequentemente eu não tinha informação de endereço nenhum para inserir. Pensei comigo: “Se eu fechar esta janela, pode ser que seja necessário preencher tudo novamente quando eu voltar ao site, sendo assim, vou fechar. Fechei!. 

Para a minha surpresa, fechar a janela no computador gerou um número de protocolo. Era necessário realizar o pagamento do requerimento em um determinado prazo e caso isto não fosse feito, a solicitação em nome do viajante seria automaticamente cancelada. Entrei em desespero. E quem me conhece sabe o quão desesperada fico quando este tipo de coisa acontece.

No rodapé da página havia um número de contato ao lado um ícone do Whatsapp. Enviei uma mensagem em inglês explicando todo o ocorrido.

Bharat Sharma foi extremamente simpático, me ajudou a resolver todo o problema de forma muito rápida, assim como também me fez sentir segura. 

Conhecendo a cidade melhor do que nós brasileiros, ele gentilmente me ofereceu seu contato particular e pediu que eu compartilhasse seu número com os viajantes que iriam antes de mim. Caso fosse necessário poderiam se hospedar na sua casa ou entrar em contato se precisassem de ajuda.

Após alguns dias nos falando, Bharat me confidenciou que não era para ele ter atendido o meu chamado naquele dia. Na verdade a minha mensagem pedindo ajuda para resolver o problema havia sido direcionada para um amigo e como o amigo não estava, para ajudá-lo ele acabou assumindo a responsabilidade de me atender. 

Adicionamos um ao outro nas redes sociais, e mais do que me ajudar com informações sobre a Índia, Bharat me ajudou a entender a mim mesma. Falo aqui de uma pessoa com uma sensibilidade maravilhosa. Alguém que ao ver minhas fotos ou fazer uma chamada de vídeo pode enxergar em mim o quão quebrada eu estava por dentro.

Seu jeito (nem sempre fácil) me ajudou a encontrar a luz que há muito eu já não via brilhar dentro de mim. Era preciso paciência, era preciso acreditar em mim novamente e quando eu já não acreditava mais, ele me fez ver que era possível.

“Faça algo que faça você olhar para dentro. As respostas que você precisa estão dentro de você;!” (Ele disse) e na mesma semana minha amiga Mariana quase que como uma confirmação do universo disse: “Vamos fazer uma aula de Yoga?”

“Se ouça!”… “Se veja!”… “Fale com você mesma!”…

Palavras pequenas, de força tremenda. A minha viagem se aproximava e eu re-encontrava dentro de mim alguém que eu havia trancado no canto mais escondido do meu eu. 

Um olhar superficial, jamais ouviria o pedido de socorro desta alma que abriga meu corpo.

O processo de transformação nem sempre foi fácil. Coloquei na minha cabeça que eu tinha até o dia da minha viagem para mudar tudo o que eu podia antes de ir. Houveram dias de dor, de raiva, dias de choro.

Antes e depois - Laila

Os 100 quilos na balança foram reduzidos a 65 quilos antes da viagem. Sem cirurgia, puro esforço e determinação. Agora 58 quilos! Eu venci obstáculos todos os dias e mesmo estando 2 oceanos e 24 horas distante, a viagem me motivava. 

Reconheço minhas falhas, minha teimosia e ainda choro (e choro muito.. E acredite, não me sinto bem comigo mesma quando isto acontece. Me sinto envergonhada e muitas vezes decepcionada quando permito isto acontecer). 

Como foi dito no início deste texto, tudo que acaba dá lugar para que algo novo comece. Meu ciclo no Brasil de encerrou e com muita gratidão me despeço desta metade de uma vida vivida na terra Tupiniquim. 

Carrego dentro de mim todo o aprendizado, as grandes amizades, o amor familiar, o amor de irmão. Sentirei saudades, mas meu coração ouviu o chamado e o destino confirmou que era este o caminho. Hora de partir!

Um novo ciclo se iniciou, a família Sharma me acolheu como membro definitivo. Sobrenome a caminho. Nova profissão, novos planos e sonhos. Acredito mesmo que minha Índia tenha me chamado antes mesmo de eu nascer, mas era preciso renascer para poder entender as maravilhas que minha Índia reservava para mim.

Como foi dito em muitos trechos deste texto, nada aconteceu por acaso. Nada foi coincidência. Tudo é destino. Tudo está escrito. Literalmente escrito! No meu caso em quatro idiomas (Português, Inglês, Hindi e Sânscrito) mas com um significado único: 

Bharat (nome dele… de origem sânscrita) Significa – ÍNDIA.

Gostou do texto? compartilhe com seus amigos. Ainda há muito para contar, e eu tenho certeza de que você não vai querer perder mais detalhes.

Viaje comigo para a Índia. 

Deixe seu comentário. Obrigada pela sua visita!

Publicado por lailasharmabs

In search of light, inner peace!

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