Viver é melhor que sonhar…(New Delhi é assim)

“Abandone o seu conhecimento, esqueça as suas escrituras, esqueça as suas religiões, suas teologias, suas filosofias. Nasça novamente, torne-se inocente – e a possibilidade estará em suas mãos. Limpe a sua mente de todo conhecimento que não foi descoberto por você mesmo, todo o conhecimento que foi tomado emprestado dos outros, tudo o que veio pela tradição, convenção, tudo o que lhe foi dado pelos outros – pais, professores, universidades. Simplesmente desfaça-se disso. Novamente seja simples, mais uma vez uma criança.”

(Osho)

Vivendo o sonho

Mudar de país e mergulhar em uma cultura completamente diferente da nossa, exige que façamos adaptações numa velocidade extremamente mais rápida que o comum. Às vezes, simples ajustes bastam, mas na maioria das vezes, mudanças bruscas assim nos mostram o quão pequeno somos diante dos acontecimentos desta vida.

Estar em contato com uma cultura de raízes religiosas, com um idioma milenar onde as letras são variações simbólicas do alfabeto sânscrito, é literalmente como nascer de novo. A comunicação em inglês é difícil, nossas acentuações abrasileiradas não se parecem em nada com o inglês pronunciado pelos indianos. Você é forçado a tentar de tudo para se fazer ser entendido. Você faz gestos, usa o Google tradutor, faz mímica, e quando isto tudo não basta, recorre ao papel e caneta para desenhar.

Coisas simples podem te prejudicar. Um simples gesto, uma simples palavra traduzida ou entendida de forma errada podem te colocar dentro de grandes encrencas. Comunicação é tudo!

O mundo fora do nosso país é literalmente um novo mundo. Ele não é carinhoso ou ameno com você só porque você é estrangeiro (a). As pessoas de bom coração, de boa conduta irão te ajudar, mas se não tomar cuidado, as pessoas com más intenções puxarão seu tapete se passando por pessoas boas. Elas irão se aproximar de você, e se aproveitarão desta sua vulnerabilidade “momentânea”.

Eu digo “Momentânea”, pois é impressionante como nos adaptamos rápido. Mas, tudo é parte de um processo. Fora de casa, somo como um bebê recém-nascido. É preciso negar tudo, e reaprender.

Nós reaprendemos a melhor forma sobre como devemos nos comunicar, como devemos nos comportar, quais são as melhores maneiras para (e por onde) se locomover e depois de alguns dias imersos nesta nova dimensão, você começa a celebrar pequenas vitórias. São pequenos desafios diários, coisas que normalmente no seu país de origem você não celebraria. Coisas simples, mas de um valor grandioso para a sua felicidade. Você volta a acreditar em você, e descobre o quão forte você pode ser.

New Delhi – Uma infinidade de cores, um paraíso de sabores.

Capital do país, a cidade de New Delhi está localizada ao norte da Índia.

Poeira no asfalto, nos tetos e nos capôs dos carros. Há terra nos pneus das motocicletas, nos Rikeshaws (Riquixás), nos Tuk-Tuks e também nas solas dos meus sapatos.

Vestindo suas tradicionais (e não tão tradicionais) roupas coloridas, mulheres, homens, idosos, adolescentes e crianças, dividem os espaços das ruas com os carros, as motocicletas, animais em geral e as vacas (que por incrível que pareça, só ví uma única vaca… Mas elas estão lá, simmmmmmmmmmm elas estão).

Há alguns relatos de turistas na internet fazendo reclamações; dizendo que o cheiro das ruas de New Delhi é muito ruim. Há alguns vídeos em que esses turistas dizem que por onde se anda, pode-se sentir cheiro de lentilha e de massala (tempero indiano).

Obviamente, há lugares em que esta vastidão de odores é sim muito forte. Como paulista que sou, posso explicar melhor fazendo uma comparação bastante simples. Imagine que você está caminhando pelas ruas do centro de uma grande cidade, como quando você (que é paulista ou paulistano) caminha pelas ruas do Centro da Cidade de São Paulo – SP, por exemplo. Nos arredores do local onde você se encontra (nesta situação hipotética) há vários estabelecimentos preparando as mais diversificadas possibilidades de refeições. Nas proximidades, dezenas de lojas vendem seus produtos; há pessoas que falam em volume extremamente alto, competindo com as buzinas e com os barulhos da cidade. Algumas pessoas caminham muito apressadamente, enquanto outras caminham na velocidade de uma tartaruga manca. É isso, sem segredos!. New Delhi é assim!.

Mas, se New Delhi é igual a qualquer outra grande metrópole do mundo, o que faz dela uma cidade tão especial?

Dentro de toda esta normalidade (ou desta anormalidade; para aqueles que ainda não se acostumaram com a vida dentro das grandes cidades), todo o caos urbano descrito acima não traz em si novidade alguma em comparação a outras grandes cidades. Mas, quando se está aberto a enxergar com os olhos de um aprendiz, de alguém que está visitando a cidade de forma aberta à sensibilidade, e com o desejo de visitar a própria alma, certamente não haverá cheiro ruim ou caos urbano que te impeça  de aprender as grandes lições desta vida, e de descobrir belezas vindas da lama.

Nos dias de hoje, New Delhi é considerada a segunda maior cidade do mundo, ficando atrás apenas da cidade de Tóquio no Japão. Segundo dados estatísticos, a população de New Delhi pode crescer ainda mais.

Caso os tais “dados estatísticos” estejam certos, New Delhi pode passar de segundo para o primeiro lugar. Ou seja, pode se tornar a cidade com a maior população do mundo até o ano de 2050.

Eu nasci e cresci na cidade de São Paulo. Foram trinta e um anos vivendo dentro nesta loucura de cidade. Portanto, antes que você ache cansativo, ou repetitivo ter que ler eu citando tantas vezes a minha cidade natal, peço que por favor entenda que está é a maior (e também a única) referência que eu posso te dar com propriedade.

Para você que também é morador de São Paulo, será fácil criar estas imagens em sua mente. Certamente, você conseguirá entender tudo com muita clareza.

Embora existam diferenças gritantes, as semelhanças entre elas são maravilhosamente incríveis. New Delhi é quase que um pedacinho de casa há 14.000 km do Brasil.  

Caso você seja morador de outra grande metrópole, eu te faço um convite/desafio: Conheça o centro de São Paulo, e se possível um dia viaje para New Delhi. Você vai lembrar de mim!.

Nós brasileiros, estamos acostumados com o clima tropical do nosso país. Isto é, estamos familiarizados com um inverno completamente confuso; com dias que começam com temperaturas congelantes, e por ser tão frio fazem com que passemos parte do dia batendo o queixo.

Às vezes, temos que sair às ruas com mais de duas ou três blusas, e no final da tarde, somos surpreendidos por uma onda de calor insuportável.

Para os paulistas e paulistanos, a coisa é ainda mais louca. Quando me perguntam como é o clima na cidade de São Paulo, eu costumo dizer que quem mora nesta cidade precisa sair de casa preparado para enfrentar as quatro estações do ano (primavera, verão, outono e inverno) em um único dia. E vale lembrar que, esta mesma pessoa também precisará andar pelas ruas com bolsa ou mochila, pois quando a temperatura subir será necessário começar a remover as suas peças de roupas, (parecendo uma cebola cheia de camadas) e depois guardá-las; tudo isto porque os passageiros do transporte público da cidade reclamam muito quando andamos com grandes volumes nas mãos.

Antes de seguirmos, gostaria de lembrar que no Brasil, há estados que não conhecem baixas temperaturas.

No caso de New Delhi, a questão da temperatura é ainda mais intensa. E não pense que é exagero da minha parte não. Quando digo que a coisa é intensa, quero dizer que a temperatura em New Delhi pode te fazer congelar ou derreter, tudo depende da época do ano em que você faz esta visita.

O ar de New Delhi é seco e a poluição é grande. Ao longo do ano a temperatura pode variar entre 8ºC e 43ºC. No entanto, sortuda como eu sou, quando desembarquei do avião, os termômetros marcavam apenas 4ºC.

As riquezas de New Delhi

New Delhi abriga entre as belíssimas arquiteturas modernas, ótimas opções de áreas verdes, além de templos grandiosos (Hindus, Islãmicos, Sikhs, Budistas e Jainistas).

Uma das grandes curiosidades, é que você poderá encontrar dentro destes templos detalhes riquíssimos esculpidos à mão, sejam eles em peças pequenas ou em paredes inteiras. Falamos de detalhes que foram e estão esculpidos em muros com larguras maiores que as de campos de futebol.

Em New Delhi, você também irá se deparar com itens arqueológicos de diferentes civilizações; como monumentos herdados pela colonização britânica e também com algumas ruínas sobreviventes de antigos Impérios (Mogol, Árabe, Sikh e Europeu).

O que visitar em New Delhi

Há muitas opções interessantes de lugares a serem visitados. Eu dividirei com vocês aqui no blog um pouco sobre todos os lugares que visitei. Além de também compartilhar dicas sobre os lugares que ainda não fui, mas irei em breve.

Mas atenção, dentro de muitos desses lugares é proibido a utilização de aparelhos celulares e câmeras. Ou seja, sabe aquela “selfie” que você planejou tirar e postar nas redes sociais? Esqueça!. Ou melhor, contente-se em tirar esta foto apenas do lado de fora.

O que acontece com você, aquilo que você vê do lado de dentro se torna parte da sua memória, e se alguém quiser saber como foi a visita lá dentro, deverá estar aberto à te ouvir e a enxergar com os seus olhos.

Bom, eu sou o tipo de pessoa que adora tirar “selfies”, e diante destas “regras”, também tive meus planos modificados várias vezes.

No começo a gente estranha, não entende. Mas conversando com o Bharat (meu noivo), que é um indiano com uma visão incrivelmente sábia e ampla das coisas, tudo ficou mais claro.

Na sua interpretação (muito bem enraizada e entendível de sua cultura), Bharat defende que, “Quando lugares como estão abertos à visitação, não significa que você deve apenas passar por este lugar, tirar suas fotos e fim. Muito pelo contrário, o convite é mais profundo. Lugares como estes pedem que visitemos a nós mesmos enquanto os visitamos”.

Ou seja, estes monumentos e templos carregam dentro de si a história, a mitologia, e boa parte do conhecimento, cultura e filosofia de vida de um povo, no caso a filosofia hindu. Não são meros lugares de visitação, são lugares que se você visitar estando aberto. E fatalmente, você poderá sair de lá transformado.

Eles estão lá protegidos pelo povo, pela sua cultura há anos, e seguem nos ensinando apenas pelo simples fato de ainda existirem. Portanto, é importante que toda esta troca seja feita em sintonia com uma reciprocidade verdadeira. Eu acredito que você concordará comigo se eu te disser que, isto é coisa que impossível de se fazer com um celular nas mãos.

“Quanto mais profundo você vai dentro da vida, mais entende a imortalidade dentro de você”.

(Osho)

Aquilo que fazemos em vida, ecoa na eternidade. Pergunte a você mesmo, o que você tem feito para se tornar imortal?

Não se engane! Os acontecimentos desta vida nos atravessam para nos ensinarem como podemos ser pessoas melhores. Não as são as nossas fotos que farão de nós uma pessoa mais amada, ou a pessoa com mais amigos e seguidores. Mais importante que tudo isto é a nossa essência enquanto ser humano.

De forma muito humilde posso assumir que, embora eu fale sobre profundidade, ainda falta muita profundidade em mim.

Precisamos entender melhor o nosso lado de dentro, pois só assim será possível viver intensamente e os verdadeiros presentes que a vida nos dá.

Existe Old Delhi?

Sim, nós temos Nova Delhi e Velha Delhi. Ambas ficam no mesmo estado, e adivinhem qual é o nome deste estado… DELHI!!!.

Se New Delhi foi descrita acima como uma cidade parecida o centro da cidade de São Paulo, Old Delhi pode ser comparada à região da rua 25 de Março em épocas de compras de Natal e Carnaval juntas.

Sem exagero algum, pense em todas as descrições dadas sobre New Delhi, multiplique por 10 vezes mais tudo aquilo que você imaginou quando leu os detalhes sobre: gente caminhando pelas ruas, pessoas falando alto, os cheiros disso e daquilo, comidas sendo preparadas nas esquinas, motocicletas, lojas e mais lojas. E, para finalizar, revire todas as suas memórias sobre as ruas nas proximidades do Terminal Pq. Dom Pedro II. Pronto, agora sim você tem a descrição perfeita de Old Delhi.

Caminhando com Tarun Sharma pela famosa região da Chandini Chowk, confesso que demorei alguns minutos para entender tudo o que acontecia por lá.

Pela primeira vez eu senti medo, mas não era medo de ser assaltada (porque eu estava acompanhada pelo meu cunhado), mas eu senti medo de me perder dele no meio daquela multidão toda.

Por diversas vezes eu fui abordada por crianças, moradores de rua e por pessoas em condições de pobreza extrema, assim como ambulantes, vendedores dos mais variados tipos de produtos.

Depois de muito repetir para todos eles: “Não quero… não tenho”. Fui orientada pelo Tarun, que em suas sábias palavras me disse: “Motto (a forma carinhosa que ele e meu noivo me chamam), não tente ser educada. Seja bruta! Aqui é uma selva, apenas ande”.  

Old Delhi, é a região perfeita para quem quer fazer compras de lembrancinhas para parentes no Brasil. Lá, você poderá comprar em preços bastante atrativos os trajes típicos indianos (como os famosos saris que as mulheres usam), incensos, temperos, enfeites para casa, antiguidades e eletrônicos.

É preciso ir preparado. Todo cuidado é pouco. Há uma infinidade de “gatos” nos fios de energia elétricas, muitas e muitas poças d’água, e se você reparar bem no chão, poderá encontrar até mesmo fezes (humanas e de animais) pelo caminho. Por isso, sugiro que usem sapatos fechados e que as mulheres cubram bem o colo, pois por termos o biótipo físico diferenciado, os homens olham mesmo (mesmo estando acompanhada, dão seu jeito de olhar).

Mas não se assuste, nesta região há também belos monumentos. Lugares que valem muito a pena serem visitados.

Red Fort (Forte Vermelho)

Construído em 1638, o Red Fort é hoje um monumento reconhecido pela UNESCO como um dos Patrimônios da Humanidade.

Ele foi batizado com este nome exatamente por ser formado por enormes muralhas de arenito vermelho.

Para se proteger de possíveis invasores, o Imperador Mogol Shah Jahan (o mesmo que mandou construir o MARAVILHOSO Taj Mahal), deu ordens para que as paredes fossem bem altas. Algumas delas medem cerca de 33 metros de altura.

Do lado de dentro das grandes muralhas, o visitante pode encontrar: Construções com decorações florais, cúpulas duplas, esculturas, artes que ilustram a arquitetura mogol e o múseo do Memorial de Guerra Indiano (uma homenagem aos soldados indianos que participaram da Primeira Guerra Mundial, em nome dos britânicos).                

Há outros fortes construídos na Índia e por se tratarem de um local de visitação turística, a entrada não é gratuita.

A Volta para casa e a pausa para o lanche – Comida de Rua

Embora eu possa descrever as deliciosas e exóticas comidas de rua de New Delhi, acredito que chegou a hora de compartilhar algo que exemplifique com mais clareza. E vocês devem concordar que, há muita diferença entre ler sobre comida e ver comida. Portanto, convido vocês à assistirem ao vídeo abaixo.

            Fico muito, muito, muito feliz que tenha lido até aqui. Como dito nos posts anteriores, criei este blog não apenas para falar sobre a minha experiência de viajar e querer viver na Índia, mas a ideia disto tudo se baseia em utilizar desta busca espiritual e dos relados desta viagem para ajudar outras pessoas por meio das minhas palavras. Então, peço que por gentileza você compartilhe este, ou até mesmo outros posts deste blog com os seus amigos e familiares.

Ah, e não vá embora sem deixar seu comentário.

A casa é sua!. Faça perguntas, sugira temas, será um prazer para mim ter sua presença aqui sempre.

Namaste e que novos caminhos de luz se abram em sua vida!

Distinguir-se

“Eu quero mudar você – Isso não é uma revolução. / Eu estou disposto a mudar – Agora isso é uma revolução”.

(Sadhguru)

Convite

Convidar – Solicitar presença. Convocação que se faz a alguém para que esta pessoa compareça, esteja presente ou participe de alguma coisa.

Há inúmeras formas de convidar ou de ser convidado por alguém. Às vezes, os convites chegam até nós de forma direta; inesperada; surpreendente. Em alguns casos, podem parecer ofensivos ou cheios de más intenções, mas ainda assim são considerados “Convites”.

A ação seguinte ao ato de convidar alguém só é válida quando o convite é “aceito”. Ou seja, só se descobre o que acontece a seguir quando se responde “Sim” ao convite, caso contrário, tudo não passará de imaginação, expectativa.

Quando comecei a organizar meus pensamentos para escrever este post, dei uma lida em todas as postagens anteriores aqui no blog (Caso você ainda não tenha feito isto, recomendo que faça!). E preciso confessar que sinto que chegou a hora de avançarmos.

Entenda que, não falo apenas sobre avançarmos nas narrações dos acontecimentos incrivelmente maravilhosos em New Delhi (Índia), mas sim em nos aprofundarmos um pouco mais em nossas reflexões.

Quero te oferecer condições diferenciadas para se revisitar, para se reencontrar, ou até mesmo de fazer as pazes com esta pessoa que vive dentro do seu corpo, o seu verdadeiro eu. Como caminho para isto, te ofereço minhas palavras e a história dos desafios pelos quais tive que passar para que eu pudesse mudar quem eu costumava ser e assim começar a construir um futuro melhor, já que ainda tenho tempo nesta minha passagem pela vida.

Bom, agora que chegamos até aqui, te convido a deixar de lado as suas opiniões formadas sobre tudo o que é relativo à Índia e ao Brasil, e à começar olhar para dentro de si.

Eu sei que você deve estar pensando: “Desta vez a Laila realmente ficou louca!”. E pode até ser que eu não tenha muita sanidade mental, mas confie em mim, vai valer a pena. Esta proposta também já foi aceita por mim, e eu sobrevivi, não foi?

Então se deixe levar pelas reflexões deste post, e esteja preparado para enfrentar a si mesmo.


Lar / Casa

Local onde há harmonia / Local onde as pessoas se sentem bem.

Quando mudamos de uma casa para outra, nós estamos literalmente apenas mudando de casa. Mudando de espaço. O Lar só é considerado lar por conta da harmonia entre as pessoas que vivem dentro desta casa.

Viver e morar no Brasil, na Índia ou em qualquer outro país de origem é extremamente confortável ao cidadão nativo deste lugar. Primeiro, por que se trata da própria terra natal. Segundo, porque dominamos o idioma. Mas, o principalmente porque se trata da nossa casa, e a nossa casa é a nossa zona de conforto.

O problema disto é que a zona de conforto nos cega!.

E por mais que tenhamos nossos questionamentos, nossas inquietações, dentro desta área cega estamos seguros de certa forma. Sem tanta vulnerabilidade, sem correr riscos desconhecidos. Conhecemos esta área muito bem, ou pelo menos conhecemos o básico que nos mantém protegidos.

Nossos países são como as nossas casas, e como disse lá em cima, isto não quer dizer que são nossos lares. No final de tudo, pouco importa a sua nacionalidade, há problemas dentro de todas as casas.

Mas afinal, qual a razão destes problemas?

Pedi para que meus amigos (e seus amigos), e e também aos meus familiares (Brasileiros e indianos) que completassem estas duas seguintes frases para mim:

“Quando penso no Brasil, penso em…” e “Quando penso na Índia, penso em…”

Fiz este pedido, porque eu gostaria de saber o que brasileiros e indianos pensam sobre seu próprio país e sobre o país do outro.

Bom, o resultado foi:

“Quando penso no Brasil, penso em…”: Samba, sol, praia, mulheres, animação, alegria, floresta, futebol, mulheres nuas ou quase nuas, mulheres fáceis (ou com a mente aberta), carnaval, diversão, injustiça social, preconceito, mulheres, futebol, caos político, ladrões, Bolsonaro,  resiliência, país maltratado, tomar sol usando biquíni no telhado, baile funk, riquezas naturais, riquezas culturais, bola,  clima tropical, povo explorado, mulher com roupas curtas, povo feliz, brasileiro que se acha europeu, pessoas calorosas e receptivas, indígenas, povo negro, desrespeito, amor, São Paulo, Fake News, Feijoada, Biquini, Mulheres de Biquini, Praias de Nudismo, Neymar.

“Quando penso na Índia, penso em…”: Cultura diferente, danças, músicas, bollywood,  hinduísmo, budismo, muçulmanos, deuses e deusas, país único, temperos, especiarias, vegetarianismo, segunda maior população do mundo, carros, trânsito, Chai, Mistura de tudo junto ao mesmo tempo, pessoas e vacas nas ruas, Gurus bons e Gurus ruins, Lentilha, monumentos maravilhosos, desigualdade, lugares de miséria, rio sagrado (Ganges), cidades sagradas, lendas, roupas coloridas, mulheres cobertas, alegria, respeito, alma, tradições, New Delhi, Festivais religiosos, pimenta, masala, cricket, orgulho das produções culturais (nossa música, nossos filmes, nossas comidas, nossa agricultura, nossas produções), orgulho da História, nacionalismo (“Estados Unidos”? Estão mesmo dividindo o mesmo planeta que a minha Índia?).

Eu acho que que agora vocês devem estar se perguntando: Qual a razão de algumas palavras terem se repetido?. Antes que eu responda, lembrem-se de que; as palavras acima não foram ditas por mim; mas, que de alguma forma elas representam uma espécie de senso comum com base nas respostas de amigos e familiares (brasileiros e indianos).

Agora fazendo uma analise simples sobre isto; notaram que tanto para brasileiros quanto para os indianos a Índia se resume em“espiritualidade” (elevação da alma), enquanto que o Brasil se resume em “Futebol, Mulheres e Diversão”.

Ou seja, enquanto a Índia representa um “Templo Sagrado”, pergunto-me: Como pode o povo brasileiro não se incomodar com a fama de “Casa da Bagunça?”. Para os homens brasileiros, a “fama do futebol”, para a mulher brasileira, a fama de “mulher fácil”, “vulgar”, “safada”, “prostituta”.

Reflitam, ok? Então, vamos continuar.


Templo de Lótus (Lotus Temple – New Delhi)

Religião vem do termo “religare” – o homem estava separado de Deus e, uma vez reconhecendo seu pecado, precisava de algo que o ligasse novamente a Deus – Que o Religasse. Daí o termo “Religião”.

Espiritualidade é tudo aquilo capaz de produzir em mim, uma mudança de pensamento, atitudes e conceitos. Aquilo que me coloca em um novo rumo e me oferece um novo sentido para a vida.

(Bíblia – Lc 10, 25-37).

Além do Hinduísmo, a religiosidade indiana abrange também o Islamismo, Cristianismo, Budismo, Sikhismo e o Jainismo.

Basta desembarcar do avião e caminhar pelos corredores do aeroporto Indira Gandhi (em New Delhi) para começarmos a ter os primeiros contatos com esculturas e imagens das divindades hindus. A relação de respeito dos indianos com as divindades é fantasticamente encantadora.

Dentro das casas, nos comércios, nos shoppings; praticamente em todo lugar é possível encontrar estátuas grandes, miniaturas, adesivos, e dentro da minha família temos até mesmo tatuagens com frases dos mantras sagrados.

Tarun’s Shiva Tattoo – Originalmente escrito em sânscrito, o “Mahamrityunjaya Mantra” (o grande mantra que ajuda a vencer as doenças e a morte), conhecido também como “Tryambakam Mantra”, um dos mais sagrados e poderosos mantras dedicados ao Senhor Shiva, é um verso do Rigveda, também citado no Yajurveda.
Bharat’s Hanuman Tattoo – “Om Sri Hanumate Namaha
Que pode ser traduzido como: “Saudações ao prana consciente.” Recitar este mantra para obter força física, resistência e poder. … Que pode ser traduzido como: “Vitória ao invencível Hanuman.” “Vitória ao prana em seu curso evolutivo, que fortalece a vontade através do chacra da garganta.”

Bharat Sharma e eu decidimos que neste dia visitaríamos o Lótus temple (Templo de Lótus – New Delhi). Eu já havia escutado alguns elogios sobre a sua arquitetura, mas não fazia ideia de como era o seu interior.

Atravessamos as ruas da cidade em sua motocicleta. O sol brilhava, mas não o suficiente para aquecer este dia de inverno indiano.

As pétalas da gigantesca Flor de Lótus podem ser vistas de longe.

O templo de Lótus é uma das oito Casas de Adoração Baha’is espalhadas pelo mundo, e embora cada uma delas tenha um formato diferente, todas elas possuem nove lados e um domo central.

“…Com relação ao significado do número nove: sua importância como símbolo usado tantas vezes em várias conexões pelos crentes está em três fatos: Primeiro, simboliza as nove grandes religiões do mundo das quais temos algum conhecimento histórico definido, incluindo os Babi. e revelações bahá’ís. Segundo, representa o número de perfeição, sendo o número único mais alto; Terceiro, é o valor numérico da palavra ‘Bahá’i...  “Número nove, que por si só é o número da perfeição, é considerado sagrado pelos bahá’ís, porque simboliza a perfeição da Revelação bahá’í, que constitui a nona religião na linha das religiões existentes.

Luzes de orientação, De uma carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individualmente, 9 de julho de 1939 / Diretrizes do Guardian, Shoghi Effendi, edição de 1973, p. 87 .
Lotus Temple - New Delhi (India)
Lotus Temple – New Delhi (India)

O propósito de todas as oito casas de adoração é o mesmo em qualquer dos oito países onde estão instaladas (Alemanha, Austrália, Chile, Estados Unidos, índia, Israel, Panamá, Samoa, Uganda). Elas estão abertas à todas as pessoas como um lugar reservado à meditação e oração, independente da religião ou das crenças de seus frequentadores.

Por serem amplamente abrangentes à diversos públicos, como regra principal, em todos os templos é extremamente proibido que os frequentadores façam qualquer tipo de pregação, sermão ou culto. Ou seja, é permitido apelas as leituras das consideradas escrituras sagradas de qualquer religião ou crença desde que a mesma não seja enfatizada para a conversão ou o desmerecimento de nenhuma forma de fé. Trata-se de uma casa de iluminação, um encontro entre a luz do sol e a luz do seu eu espiritual.

Os princípios da Fé Baha’i são:

  • A Unicidade da humanidade
  • A Investigação independente da verdade
  • A origem comum de todas as religiões
  • A Harmonia essencial entre ciência e religião
  • A Igualdade entre homem e mulher
  • A Erradicação do preconceito de todos os tipos
  • A Educação Universal Obrigatória
  • A Paz Universal
  • A abolição dos extremos de pobreza e riqueza
Laila Sharma e Bharat Sharma – Lotus Temple (New Delhi)

Flor de Lótus

Da lama ao caos. Do caos à pureza.

No simbolismo budista, o significado mais importante da flor de lótus é pureza do corpo e da mente. A água lodosa que acolhe a planta é associada ao apego e aos desejos carnais, e a flor imaculada que desabrocha sobre a água em busca de luz é a promessa de pureza e elevação espiritual.

A minha jornada em busca de respostas começou no Brasil e cresceu dentro de mim por longos 31 anos.

Eu ouvi meu chamado e precisei atravessar 2 oceanos para descobrir a razão disso tudo.

Nenhuma casa consegue se manter de pé quando há problemas em sua base, assim como nenhuma árvore é saudável se suas raízes estiverem apodrecidas. E eu estava desmoronando por dentro e por fora.

A boa noticia é que, não é preciso demolir a casa, tão pouco matar a árvore. Você pode salvar esta estrutura, mas precisa saber que mover paredes e cortar raízes não é um processo fácil. E, para falar a verdade, é um processo extremamente doloroso, mas o alívio que vem depois é compensador.

Quando vim para a Índia trouxe comigo toda a minha história. Os erros e acertos de toda uma vida embarcaram comigo naquele avião.

“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sábia…” e pouco conhecemos o seu canto. Estamos mais interessados em carnaval e futebol que pouco sabemos sobre a nossa terra, e o pior, pouco sabemos quem somos.

Cometi erros, e assim como muitos brasileiros, utilizei da minha nacionalidade para justificá-los, ou pior, para naturalizá-los. Errei como brasileira, errei como mulher, errei como ser humano.

A dor da decepção causada por si próprio é sem dúvida uma das dores mais insuportáveis que existe e talvez por saber disto eu demorei tanto tempo para me encarar e aceitar a minha responsabilidade de tudo.

Como dito no post anterior, a mudança aconteceu por mim, mas fui a última a perceber que era hora de começar a mudar. O cuidado veio a mim por olhos mais sensíveis que os meus naquela época.

Sim, o amor também chega até nós em forma de cuidado. A sugestão de Bharat Sharma para que eu conversasse com o meu interior, e a confirmação disto por meio da minha amiga Mariana (que praticamente no mesmo dia me convidou para praticar Yoga), foi sem dúvida alguma a manifestação da certeza de que o universo desejava este meu despertar.

Toda a sensibilidade, amor e cuidado de Bharat Sharma por mim me apresentou caminhos, e confesso que nem sempre foram fáceis de se caminhar, nem por mim, tão pouco por ele, mas toda a sua coragem e sabedoria me fizeram confiar em mim mesma e por isso me lancei.

Toda esta atmosfera mágica, me fez desejar trilhar esta busca pela limpeza espiritual. Entenda que, eu nunca tive e não tenho intenção alguma de me tornar uma monja ou uma freira, meu desejo é mais humilde. Quero ser uma pessoa melhor. Melhor para as pessoas que amo, melhor para mim.

Foi preciso sair de casa para entender que o Brasil era apenas uma casa, e não o meu lar.

Foi preciso vir a índia para entender que meu lar é aqui, e que o sobrenome Sharma não é um acaso, é a confirmação do destino. Um verdadeiro presente de Deus para nós.

Mas do que caminhar na luz, é preciso estar dentro dela. Por isso, caminhei de mãos dadas com ele em lugares escuros e doloridos, dentro dele, dentro de mim.

Há dias em que a iluminação se faz presente em ambos, há dias que um precisa ajudar iluminar o outro.

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”

Trecho do livro “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry.

Índia, Brasil, o mundo todo precisa de luz Só se é possível enxergar caminhos se acendermos esta lâmpada solitária dentro de nós. Iluminando primeiro a nós mesmos, para podermos enfim ajudar a iluminar os outros.

Há lama em todos os lugares deste mundo, dentro e fora de cada um de nós. Sejamos todos como uma flor de Lótus, sejamos nosso próprio templo. E mesmo que a lama seja sua casa, que ela esteja por perto ou que sua casa esteja flutuando no lodo, que sejamos intocáveis dentro dos nossos lares.

Gostou do texto? Copie este link, compartilhe com seus amigos e famíliares.

Deixe seu comentário e se inscreva para receber notificações assim que novos textos forem postados.

Antes e Depois – Antes de mesmo de Ir

(Prólogo da Viagem à Índia)

Bom, todos nós temos particularidades em nossas personalidades, e uma das minhas principais características é que sou muito exagerada para contar detalhes! hahahaha.

Devo confessar que também reconheço esse certo “exagero” da minha parte, e juro que faz parte dos meus planos tentar melhorar este ponto em mim, mas…. se vamos falar aqui sobre o antes, nada mais justo do que começar pelo “começo do começo”. (Não é?! hahaha).

O começo antes do Começo.

Os vedas e as 4 leis da espiritualidade hindu.

Assim como os Cristãos seguem a Bíblia, os Hindus seguem os preceitos dos Vedas. Os Vedas (“Rig Veda”, “Yajur Veda”, “Sama Veda” e “Atharva Veda”) são os livros / as escrituras sagradas compostas por ensinamentos em forma de hinos, versos e mantras. Eles auxiliam na orientação da espiritualidade e na verticalização ideal das ações humanas. Além disto, os Vedas também são considerados pelos historiadores os primeiros livros sagrados da história da humanidade.

Quando comecei me aprofundar mais na cultura indiana, por sugestão de Bharat Sharma (guardem bem este nome, pois todo este texto vai te fazer entender como ele entrou na minha vida) tive a oportunidade de ter  contato com mais duas obras magníficas: “O Mahabharata” e “Bhagavad Gita. Eu preciso dizer, são ambos incrivelmente poderosos e profundos. Em resumo, todas as obras acima se conectam e são uma perfeita oportunidade de aprendizado. Gosto de defini-las como um mergulho profundo dentro da alma humana por meio das bases culturais indianas.

Há certas coisas que nós apenas entendemos quando vemos ou vivemos. Eu precisei ser parte disto, eu precisei viver dentro de uma família indiana para entender sua rotina funciona, entender qual o papel da mulher na casa (e acreditem não tem nada de submissa como vemos nas TV’s por meio das novelas) e também para entender como pensam os hindus.

Antes mesmo de ir à Índia, eu já acreditava que tudo nas nossas vidas acontece por algum motivo, que tudo está conectado e que o destino de cada um de nós é traçado desde a nossa concepção no ventre materno.
Coincidência ou não, a cultura indiana tem um pensamento muito de encontro a este que compartilho, e na Índia os acontecimentos da vida são encarados das seguintes formas:

“A Pessoa que vem é a pessoa certa” .

Todas as pessoas que cruzamos em nossos caminhos vem até nós com o destino de ser um aprendizado ou uma ponte em nossas vidas; e quando este ciclo se completa, os vínculos com estas pessoa se encerram ou elas simplesmente distanciam.

“Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido”.

As coisas são como elas são, e acontecem como devem acontecer. Seja isso prazeroso ou doloroso, a medida dos acontecimentos são exatamente a medida que o destino reservou para cada um deles.

“Toda vez que você inicia algo é o momento certo”.

Tudo aquilo que começamos, também começamos no momento certo, pelas motivações certas. Até mesmo aquilo que não concluímos porque algo novo surgiu, só surgiu porque era o momento certo.

“Quando algo termina, termina”.

Uma paixão que vira amizade, termina como paixão, se torna amizade. Um ciclo se completa, se encerra  e um ciclo novo se inicia. Obviamente, se estivermos falando da morte, podemos encarar como algo que se encerra nesta vida para aqueles que partem, porém para aqueles que ficam, algo novo surge. Ou seja, todo fim é um fim para que algo novo venha.

Gênesis (Adoro essa referência para criar impacto dramático na narração – hahaha)

Sábado, 10 de Dezembro de 1988, 14h42 (2h42 pm). A Cidade de São Paulo (Brasil) recebia mais uma habitante, eu!. A lenda diz que meus primeiros 9 dias de vida foram bastante agitados, isto porque minha mãe biológica por algum motivo (que eu não sei e jamais quis saber) desistiu das suas responsabilidades e deveres como minha genitora, e como nada acontece por acaso, o destino fez com que os caminhos dos meus pais adotivos se encontrassem com o caminho desta mulher. 

Com 10 dias de vida eu já tinha uma família e eles que a muito tempo queriam um bebê, me tinham!

O nome Laila foi escolhido pelo meu pai. Tirou de algum filme que nunca soube me dizer qual. Laila significa: “Escura como a noite” (a noite escura que procura pela iluminação da lua).

Meu pai, era caminhoneiro. Minha mãe, trabalhou muitos anos como revendedora, mas depois de um certo tempo começou a trabalhar na limpeza e nos cuidados de uma casa de família.

As lembranças da minha  infância se misturam com os prazeres das aventuras, das descobertas de um mundo com outras crianças. Se misturam nas memórias com meus grupos de amigos, dos nossos brinquedos, das nossas brincadeiras, nossos momentos de diversão, algumas brigas e joelhos machucados. 

Quando se é criança, a vida não te entrega muitas responsabilidades, isto porque na minha opinião a vida guarda todas elas para quando formos adultos. Então quando se é criança, a vida apenas exige de nós que possamos aprender as coisas enquanto nos desenvolvemos.

As surpresas da vida no processo de amadurecimento.

Aprendendo sobre o fim.

Passada a minha adolescência e o meu comportamento teimoso, ainda na minha passagem para a fase adulta os meus pais decidiram seguir caminhos diferentes. Eu segui o caminho ao lado de minha mãe. Nossa casa ganhou vida!. Minha mãe voltou a sorrir, e consequentemente ao vê-la sorrindo meu coração se enchia de alegria também.

Comecei a trabalhar e conclui minha graduação na universidade. Anos mais tarde, minha mãe não estava se sentindo bem. Fomos ao hospital, descartaram qualquer possibilidade de doença grave e nos mandaram voltar para casa. Algo estava errado, como não puderam ver?. Nós insistimos em visitar outro hospital, lá a equipe médica a manteve internada para mais exames. 

Em uma conversa particular eu recebi do médico de plantão o diagnóstico de neoplasia. Pedi a ele e a equipe que não contasse nada sobre o diagnóstico para a minha mãe. Eu não conseguia imaginar ela recebendo uma notícia como esta depois de tantos anos tentando sorrir. Como eu poderia permitir que tirassem o sorriso de seu rosto? 

O Tumor começou no pulmão direito e espalhou-se para o cérebro. A luta era constante. Eu me fiz tão forte na frente dela, mas quando eu chegava em casa, era uma mistura de sentimentos. Eu não queria que ela percebesse minha preocupação ou tristeza. 

Embora os médicos tenham me falado que poderiamos tentar fazer a radioterapia ou até mesmo a quimioterapia, meu coração sabia que era apenas mais um procedimento que precisavam fazer e dentro de mim eu já me preparava para a despedida.Eu tive exatos 46 dias. 

Este foi exatamente o tempo que tive para fazê-la sorrir enquanto nos despedíamos. Eu confesso que foi um processo muito doloroso, mas eu sabia que estava acontecendo como deveria ser e que eu não tinha poderes nenhum para modificar esta realidade. Me cabia apenas aceitar.

Ausência do eu

Vazio

A dor de perder alguém que amamos é sem dúvida algo que nos acompanha para o resto de nossas vidas. Consigo lembrar da voz dela, do sorriso, do seu jeito de falar comigo, do sabor da sua comida, e por mais que eu me esforce, por mais que eu siga suas receitas com os mesmos ingredientes e medidas, jamais terá o mesmo sabor. 

Hoje eu posso dizer que quando perdi minha mãe, parte de mim se encontrou e outra parte se foi junto com ela. A pessoa divertida que eu costumava ser continuou aqui, mas talvez por medo de perder mais pessoas, comecei a viver para fazer as pessoas sorrirem.

Segundo a psicóloga Thaiana F. Brotto: “Pessoas com necessidades de agradar podem se tornar inseguras, depressivas, ansiosas, ter baixa auto estima e não ter condições de decidir por si, precisando sempre da opinião do outro.” 

Eu gosto de ajudar pessoas, gosto de fazer pessoas rirem (mesmo quando o assunto é sério). 

Eu queria me sentir viva, queria mostrar para mim que a vida continuava e ao mesmo tempo queria fazer com que mais mulheres também descobrissem a beleza dentro delas.

Antes - Laila

Eu não vi as coisas mudando ao meu redor, muito menos percebi quando comecei a guardar todas elas dentro de mim. Cheguei a pesar quase 100 quilos e não percebi isso acontecer.  O meu sorriso não era verdadeiro, meu corpo não me agradava, muito menos as minhas ações, mas eu não enxergava isso. Eu aceitava a viver a felicidade dos outros, mas não percebia que aquilo não me pertencia. 

Índia

A luz vinda do oriente.

“Ah, look at all the lonely people… All the lonely people, where do they all come from?… All the lonely people, where do they all belong?…”.

(Ah, veja ao redor das pessoas solitárias… Todas as pessoas solitárias, de onde elas vêm? Todas as pessoas solitárias, A que lugar elas pertencem?”)

O cotidiano muitas vezes nos impede de ter um olhar mais sensível para as pessoas, para as coisas. Ligamos as nossas vidas no “Piloto automático” e muitas vezes só percebemos que algo está errado depois que isto já se tornou maior. 

Era muito difícil viver pra mim, porque eu não sabia quem eu era. Chegou um momento em que eu achava ser alguém, mas no fundo estava vivendo debaixo de uma máscara, não estava sendo sincera com as pessoas que eu amava, muito menos comigo mesma.

Eu precisava me encontrar!

Muitas pessoas viajam à Índia por diferentes motivos. E toda essa minha curiosidade sempre me fez sentir que um dia deveria ir a Índia. Era preciso descobrir o motivo.

Em 1968, após turnês exaustivas, os integrantes da banda The Beatles se viram vazios espiritualmente e perdidos dentro do egocentrismo após a conquista da fama. A busca por respostas (pessoais) nas terras do oriente rendeu à banda a composição de 48 músicas e o lançamento de um álbum neste mesmo ano. 

Eu sinceramente acredito que todas as viagens de todas as pessoas que visitam este país de um jeito ou de outro acabam sendo atravessadas pela espiritualidade e mistérios da sabedoria hindu. No meu caso, a fui tocada por toda essa magia e sabedoria antes mesmo de ir.

Contato

Pessoas bastante próximas a mim também estavam se planejando para visitarem o mesmo destino, no entanto as datas das nossas viagem não eram as mesmas. Eles se planejavam para viajar em Março, e eu em Dezembro. 

Como eu já tinha algumas informações, sabia que era necessário ter um visto autorizando a minha entrada e permanência no país. Ofereci à eles a minha ajuda, afinal de contas ao ajudá-los estaria obtendo informações que também seriam de grande importância para mim.

A página de busca do Google, me levou até uma central de informações e requerimentos para vistos. Comecei a fazer o requerimento em nome de um dos dois viajantes que iriam à Índia sem mim.  Em determinado momento o formulário me pediu para inserir endereço de algum lugar onde ficariam hospedados; então para meu desespero eles ainda não haviam feito reservas nos hotéis. Consequentemente eu não tinha informação de endereço nenhum para inserir. Pensei comigo: “Se eu fechar esta janela, pode ser que seja necessário preencher tudo novamente quando eu voltar ao site, sendo assim, vou fechar. Fechei!. 

Para a minha surpresa, fechar a janela no computador gerou um número de protocolo. Era necessário realizar o pagamento do requerimento em um determinado prazo e caso isto não fosse feito, a solicitação em nome do viajante seria automaticamente cancelada. Entrei em desespero. E quem me conhece sabe o quão desesperada fico quando este tipo de coisa acontece.

No rodapé da página havia um número de contato ao lado um ícone do Whatsapp. Enviei uma mensagem em inglês explicando todo o ocorrido.

Bharat Sharma foi extremamente simpático, me ajudou a resolver todo o problema de forma muito rápida, assim como também me fez sentir segura. 

Conhecendo a cidade melhor do que nós brasileiros, ele gentilmente me ofereceu seu contato particular e pediu que eu compartilhasse seu número com os viajantes que iriam antes de mim. Caso fosse necessário poderiam se hospedar na sua casa ou entrar em contato se precisassem de ajuda.

Após alguns dias nos falando, Bharat me confidenciou que não era para ele ter atendido o meu chamado naquele dia. Na verdade a minha mensagem pedindo ajuda para resolver o problema havia sido direcionada para um amigo e como o amigo não estava, para ajudá-lo ele acabou assumindo a responsabilidade de me atender. 

Adicionamos um ao outro nas redes sociais, e mais do que me ajudar com informações sobre a Índia, Bharat me ajudou a entender a mim mesma. Falo aqui de uma pessoa com uma sensibilidade maravilhosa. Alguém que ao ver minhas fotos ou fazer uma chamada de vídeo pode enxergar em mim o quão quebrada eu estava por dentro.

Seu jeito (nem sempre fácil) me ajudou a encontrar a luz que há muito eu já não via brilhar dentro de mim. Era preciso paciência, era preciso acreditar em mim novamente e quando eu já não acreditava mais, ele me fez ver que era possível.

“Faça algo que faça você olhar para dentro. As respostas que você precisa estão dentro de você;!” (Ele disse) e na mesma semana minha amiga Mariana quase que como uma confirmação do universo disse: “Vamos fazer uma aula de Yoga?”

“Se ouça!”… “Se veja!”… “Fale com você mesma!”…

Palavras pequenas, de força tremenda. A minha viagem se aproximava e eu re-encontrava dentro de mim alguém que eu havia trancado no canto mais escondido do meu eu. 

Um olhar superficial, jamais ouviria o pedido de socorro desta alma que abriga meu corpo.

O processo de transformação nem sempre foi fácil. Coloquei na minha cabeça que eu tinha até o dia da minha viagem para mudar tudo o que eu podia antes de ir. Houveram dias de dor, de raiva, dias de choro.

Antes e depois - Laila

Os 100 quilos na balança foram reduzidos a 65 quilos antes da viagem. Sem cirurgia, puro esforço e determinação. Agora 58 quilos! Eu venci obstáculos todos os dias e mesmo estando 2 oceanos e 24 horas distante, a viagem me motivava. 

Reconheço minhas falhas, minha teimosia e ainda choro (e choro muito.. E acredite, não me sinto bem comigo mesma quando isto acontece. Me sinto envergonhada e muitas vezes decepcionada quando permito isto acontecer). 

Como foi dito no início deste texto, tudo que acaba dá lugar para que algo novo comece. Meu ciclo no Brasil de encerrou e com muita gratidão me despeço desta metade de uma vida vivida na terra Tupiniquim. 

Carrego dentro de mim todo o aprendizado, as grandes amizades, o amor familiar, o amor de irmão. Sentirei saudades, mas meu coração ouviu o chamado e o destino confirmou que era este o caminho. Hora de partir!

Um novo ciclo se iniciou, a família Sharma me acolheu como membro definitivo. Sobrenome a caminho. Nova profissão, novos planos e sonhos. Acredito mesmo que minha Índia tenha me chamado antes mesmo de eu nascer, mas era preciso renascer para poder entender as maravilhas que minha Índia reservava para mim.

Como foi dito em muitos trechos deste texto, nada aconteceu por acaso. Nada foi coincidência. Tudo é destino. Tudo está escrito. Literalmente escrito! No meu caso em quatro idiomas (Português, Inglês, Hindi e Sânscrito) mas com um significado único: 

Bharat (nome dele… de origem sânscrita) Significa – ÍNDIA.

Gostou do texto? compartilhe com seus amigos. Ainda há muito para contar, e eu tenho certeza de que você não vai querer perder mais detalhes.

Viaje comigo para a Índia. 

Deixe seu comentário. Obrigada pela sua visita!

Chai Indiano: Um abraço entre o sabor e a alma.

Experimentar o sabor do tão famoso chai indiano sempre foi uma das minhas curiosidades e quem me conhece sabe o quão teimosa eu sou. Tudo aquilo que dou como uma tarefa à mim mesma, torna-se minha missão; e: “Missão dada é missão cumprida!”.

Tomar o “chai” era mais uma daquelas coisas que a gente coloca num repertório imaginário e depois carinhosamente o chamamos de “100 coisas para fazer antes de morrer”.

Como vocês devem saber, durante a vida toda é normal que façamos alterações na nossas listas fictícias, isto porque a nossa maneira de ver e de viver o mundo, nossas responsabilidades, nosso tempo, tudo isto nos altera de forma interna, externa e rotineiramente. Isso tudo altera o nosso “Eu”, altera quem nós somos, e porque não alteraria também nossos medos e coragens?. 

Bom, eu mesma já modifiquei vários itens dessa minha lista de desejos, por uma razão bastante simples: Eu já não tenho mais a mesma mentalidade de antes! Todos os dias a maturidade bate à minha porta, às vezes acompanhada de muita alegria, outras vezes ela vem acompanhada pela dor. Eu reconheço que embora eu tenha um jeito “criança” de ser, a mulher que habita em mim já não tem mais a mesma coragem ou os mesmos motivos que a fazia pensar quando tinha seus 15 anos que um dia deveria pular de paraquedas (Missão abortada com sucesso!), isto porque a mulher que habita em mim hoje quer muito mais do que apenas viver a vida, ela quer ter e viver uma vida responsável; mas já que entrei nesse assunto, vou finalizar o raciocínio para que entendam a lógica da coisa.

Não exatamente nesta sequência, e para ser sincera acredito que nem exista uma sequência certa, mas enfim, apenas para exemplificar, vamos lá:

  • Fazer uma tatuagem (No momento estou planejando a minha 7ª tatuagem)
  • Aprender outro Idioma (Consigo comer e me comunicar em outro país, afinal de contas, o curso de inglês já está pago!)
  • Conhecer a Índia
  • Tomar Chai Indiano

Agora observem bem e vejam como a fusão de dois itens pode se tornar perfeito:

  • Tomar Chai Indiano durante o tempo em que conheço a Índia

Eu imaginava que essa junção acima seria de fato algo maravilhoso, mas eu estava subestimando minha própria imaginação. A bebida quentinha, preparada com especiarias não é apenas gostosa, ela é verdadeiramente acolhedora!.

Nos posts anteriores, contei para vocês um pouco sobre como foi a minha chegada à New Delhi, meus primeiros momentos com minha família indiana em nossa casa e também contei um pouco sobre o início de uma verdadeira experiência espiritual. 

(Para os novos tripulantes deste diário de bordo, sugiro que leiam também os posts anteriores, assim a viagem se torna mais completa).

Falar sobre o Chai indiano não é apenas falar sobre gastronomia e sobre dicas de culinária, é falar de uma tradição passada de geração para geração dentro das famílias indianas e de todo um ritual de preparo. 

Mas afinal, o que é o Chai Indiano e como ele é preparado?

O Chai indiano é o cartão de visita das famílias indianas materializado em sabor. É a recepção calorosa que substitui o abraço brasileiro nas terras do oriente. É o aquecimento interno da casa, diretamente no cômodo coração.

Nos continentes americanos é muito comum que as famílias recepcionem visitas com um copo com água ou uma xícara de café preto. No Brasil, por exemplo, o café preto é um dos itens principais do café da manhã e no lanche do final da tarde, no entanto, nossos hábitos alimentares e sedentários inspirados no modelo norte americano não demonstram preocupação alguma no aumento da longevidade da vida, preocupação esta que alguns países localizados no continente Asiático têm! (Obviamente ressalto aqui que não estou falando daqueles que comem outros animais, insetos e morcegos, se é que me entendem).

Tradicionalmente, o Chai é tomado no café da manhã das famílias indianas, e é também muito frequente nos finais de tarde, mas para marinheiros de primeira viagem, como eu, qualquer hora é hora de se entregar ao seu delicioso sabor.

Ao adentrar em uma casa indiana, de prontidão após a saudação “Namaste” é comum que o anfitrião pergunte para a visita: “Aceita um copo com água… um chai?”. E em todos os lares que visitados por mim, a minha resposta foi e sempre será a mesma: “Chai, por favor!”.

Existe todo um ritual de preparo, mas não há uma sequência específica, podemos afirmar que cada família tem seu modo de preparar, sua própria receita, mas em todas elas encontraremos  água, gengibre, chá-preto, leite e açúcar na fórmula básica do preparo; ou seja, tratam-se de ingredientes simples, que podem ser encontrados facilmente, mas que jamais podem faltar dentro dos lares indianos.

O Chai também é facilmente encontrado pelas ruas da cidade, obviamente com preços e sabores diferenciados. É possível tomar um bom e saboroso Chai por apenas 10,00 rúpias (Um pouco mais que R$0,73)

Curiosidades sobre esta delícia saudável:

É muito bonito ver os indianos e indianas falando com orgulho do próprio país, mesmo conscientes das desigualdades, não vi ou ouvi uma pessoa sequer falar algo sem que apresentasse um ponto de vista otimista sobre tudo.

Quando eu elogiava o Chai, prontamente me davam uma lista de benefícios, reafirmando minha escolha certa.

Após ouvir em todos os lares muitos e muitos benefícios sobre o Chai Indiano, resolvi fazer trazer para vocês um comparativo dos tópicos mais citados como seus benefícios e qual a impressão ou os resultados apresentados ao meu corpo após ter começado a tomar esta delícia todos os dias. Usarei aqui como base, a lista de “5 benefícios do Chai” criada pelo site “Tea Shop”  (https://www.teashop.com.br/os-beneficios-do-chai

1. Aumenta a vitalidade

“As propriedades do Chai são estimulantes e naturais devido à teína no chá preto, que vai liberando substâncias energéticas ao longo da digestão de forma saudável. É ideal para iniciar o dia e se manter ativo durante toda a jornada cotidiana.”

Laila – Senti sim mais energizada e com muita mais disposição para começar a rotina, lembrando que estamos falando aqui de um inverno daqueles em que levantar da cama se torna uma batalha, mas facilmente vencida quando se tem o Chai como aliado.

2. Previne resfriados

“Os antioxidantes do chá e das especiarias melhoram as nossas respostas imunológicas. O gengibre, em especial, também é eficaz ao aliviar sintomas se já estamos resfriados, funcionando como anti-febril e expulsando secreções como catarros.”

Laila – Mesmo com tanto frio, não houve sequer um motivo climático que me fez ficar doente, mesmo às vezes sendo teimosa e correndo do banheiro para o quarto com os pés descalços no chão.

3. Estimula o metabolismo

“A canela e o cardamomo ativam o metabolismo e seu consumo regular estimula as enzimas pancreáticas, melhorando o desenvolvimento das gorduras ao longo da digestão. Assim, o Chai pode ser tanto uma bebida para degustar durante a tarde como pode ser a base de um café da manhã energizante.”

Laila – É notável um calor diferenciado sentido internamente, não sei se apenas pelo fato de tomar o Chai, mas também pelas comidas apimentadas, comi muito, muito, muito neste primeiro mês e mesmo sem fazer exercício físico nenhum, não engordei nenhum quilo a mais, pelo contrário, perdi 2 quilos.

4. Cuida da saúde cardiovascular

“A bebida é rica em polifenóis, que regulam os níveis de gorduras no sangue e impedem a adesão das mesmas nas artérias.”

Laila – Após cruzar 2 continentes, quase 24 horas de vôo, beber o Chai também me fez sentir massageada, a circulação melhora sim!

5. Reduz a sensação de inchaço

“Ao potencializar as atividades do estômago, as substâncias que compõem o Chai acabam impulsionando a digestão de forma natural e saudável.”

Laila – De forma resumida, “Ir ao banheiro se torna mais fácil e rápido”, se é que me entendem”

É possível encontrar Chai Indiano no Brasil?

Sim, é possível sim! Não posso garantir que virá acompanhado da mesma experiência que fui contemplada a viver, mas caso tenha muito interesse e curiosidade, de uma forma econômica sugiro utilize ingredientes citados no texto acima e que siga o passo a passo  como no vídeo de demonstração.

O “Tomar Chai Indiano durante o tempo em que conheço a Índia” hoje tornou-se “Tomar Chai Indiano durante o tempo em que conheço a Índia e a mim mesma”, isto porque algumas viagens internas, são impossíveis de serem adiadas!

Dê este presente à você mesmo. Convide sua alma para um chá da tarde e aprecie o momento de degustação.

Não se esqueça de compartilhar comigo o que achou, espero que possamos conversar mais sobre muitas e muitas outras delícias da culinária indiana e sobre as revelações espirituais, um dos mais belos presentes que a vida deu nesta viagem para Índia.

Dhanyawaad!

” A cup of tea with an extra dose of happiness, please!” (Camila Queiroz)

“Uma xícara de chá com dose extra de felicidade, por favor!” (Camila Queiroz)

Há um tempo certo para tudo…

Tempo – (Substantivo masculino)

Do latim “Tempus”, tempo é a grandeza física que permite medir a duração relativa ou separação das coisas mutáveis. Ideia de presente, passado e futuro no qual os eventos se sucedem.

Falar sobre o tempo, é também refletir sobre aquilo que nos atravessa, aquilo pelo qual passamos boa parte da nossa existência desejando ter mais. Criamos estratégias, queremos ter poderes para controlar este tempo, mas na verdade é ele que nos controla, e para o nosso desespero, para nós que somos mortais, ele tem fim!

A soma das experiências e dos aprendizados que fazem de mim o que sou hoje tem a duração de um pouco mais de 31 anos, alguns meses, dias, horas, minutos e segundos. A velocidade das informações, a modernidade, horas e horas trabalhando, o trafego intenso que impede os veículos de circularem nas grandes capitais, os avanços tecnológicos que a cada dia mais estão ao alcance das nossas mãos, tudo isto também me atravessa; basta desbloquearmos o Smartphone e pronto, já não temos mais controle de nada, nem de nós mesmos. A nossa percepção de mundo está cada vez mais afetada. Ontem o homem dominava a maquina, hoje a maquina domina facilmente a mente do homem.

É curioso observar como as coisas mais simples da vida podem nos ensinar tanto, mas é preciso estar aberto e atento para percebê-las.

Assim como a maioria de nós, nasci e cresci em cidade grande, São Paulo – SP; capital financeira e um dos principais polos culturais brasileiros, mas foi em New Delhi (Capital da Índia) que a minha percepção de tempo mudou.

Como dito nos posts anteriores, ao chegar em New Delhi eu fui acolhida por eles que hoje posso dizer que são minha família. Um apartamento simples, mas muito aconchegante, um lar de amor e muito aprendizado. Uma conexão de uma vida passada, ou até mesmo a certeza do destino; me senti em casa desde o momento em que cruzei a porta de entrada.

Minha primeira noite de sono foi engraçada para os indianos e congelante para mim, isto por que o frio que eu sentia era tão grande, eu tremia demais, as cobertas não davam conta de me esquentar, foi preciso aquecer as solas dos meus pés com álcool para que o resto do corpo ficasse quente.

Este inverno indiano não me presenteou com nenhum floco de neve vindo dos céus, mas me presenteou com a transformação de toda uma vida, me fez ver o quanto minha vida estava ligada no “piloto automático”, despertou minha mente e aqueceu meu coração.

Muitas pessoas costumam comparar o banheiro da casa como um grande templo dentro dos lares, não por conta do “trono”, mas por possivelmente ser um dos únicos lugares em que temos a liberdade de literalmente ficarmos sozinhos, é uma área comum e ao mesmo tempo a mais privativa para todos os moradores da casa; local de privacidade; apenas nós, nossas ideias, alegrias, tristezas, pensamentos. Eu particularmente concordo muito com esta comparação e acho impressionante a velocidade e quantidade de reflexões que costumamos (ou que eu costumo) ter enquanto tomamos banho; e já que toquei no assunto, foi exatamente tomando banho nesses dias gelados de inverno que questionei meus entendimentos sobre o tempo.

Há muitos anos eu não tomava um daqueles banhos que no Brasil costumamos chamar de “Banho de canequinha” (onde primeiramente precisamos aquecer a água e com a ajuda de um copo, balde ou caneca vamos nos limpando. Estamos acostumados a abrir a torneira, deixar a água quente ou fria cair e ir embora pelo ralo após passear pelos nossos corpos, e enquanto isto acontece pouco nos preocupamos com a temperatura externa, pouco ligamos para quantos litros estão sendo realmente utilizados e quanto estão sendo desperdiçados unicamente porque a sensação de relaxamento debaixo da água do chuveiro é maravilhosa.

Tomar banho na nova casa me fez perceber que não estou no controle de absolutamente nada, nem mesmo da temperatura da água que me limpa.

Existe uma sequência de ações que aprendi a seguir: Primeiro você coloca a quantidade de água necessária dentro de um balde, depois você conecta um aquecedor portátil na corrente elétrica e a outra ponta dele (uma barra de metal) você coloca dentro do seu balde com água. Isso vai demorar em média de 15 à 20 minutos para estar numa temperatura agradável, então você pode aproveitar este momento para adiantar algumas coisas, talvez separar suas roupas ou como por exemplo, escovar os dentes. Depois de aquecida você desconecta o aquecedor da tomada, leva seu balde para um lugar estratégico perto do ralo e a partir daí começa a uma nova contagem regressiva, isto porque a água não vai ficar quente para sempre, ela vai esfriar, e pra mim enquanto mulher, tudo o que eu não queria era ter que tirar o shampoo da cabeça com água fria.

Foi preciso me adaptar, era o tempo da água sobre mim, ela controlava meu tempo, ela ditava as regras e eu, apenas as obedecia, caso contrário ela ficaria fria e minha pinição não seria nada agradável para o frio de 4°C. Nada acontece por acaso, e que maravilhoso viver isto! Este também foi um sinal do meu recomeço, meu novo ciclo. Eu reconheço que este processo de aprendizado é lente e posso até dizer que é infinito, e que todos os dias, novas e novas adaptações são necessárias para que as nossas vidas sigam. Investir em horas e horas para escrever sobre tomar banho em outro país pode parecer besteira, mas sou humilde o bastante para reconhecer que precisei viver isto e entender que o domínio das coisa na minha vida precisava ser retomado começando pelo domínio de coisas julgadas por mim como simples e pequenas. Talvez em São Paulo, jamais teria esta percepção, justamente por este ser o meu local de cotidiano. Quando saímos da nossa zona de conforto a vida nos surpreende, e que belos aprendizados isso pode nos dar.

Queremos controlar tudo e no fim tudo isso escorre por entre os dedos. É no acumulo da vontade de controlar que tudo se perde, que os problemas surgem e se tornam maiores.

Existem coisas e situações que não estão em nossas mãos, e para todas elas “entendimento”… “tempo”… Nós podemos nos ajustar a cada uma delas, sejam elas sentimentos, crises, é como a temperatura do lado de fora de casa, que temos que enfrentar, esta é a vida!. É preciso refletir e aprender com aquilo que a vida nos mostra, com os sinais que o Universo (Deus, forças espirituais, como quiser chamar) nos manda. É Preciso ser mais responsável por si, pela água, comida, pela forma de falar, de agir, pelo banho, pela limpeza, e ser humilde para compreender que nossas ações nunca são restritas á nós mesmos e que elas causam impacto também nas vidas das outras pessoas. Obviamente não estou dizendo aqui que tudo o que acontece com o outro é nossa culpa, na verdade defendo um equilíbrio nesta balança de responsabilidades, que uma vez equilibrada paderá ser chamada de harmonia, respeito. É preciso ter calma, afinal de contas, tudo tem seu tempo!

“Time is free, but it is not priceless. You can’t own it, but you can use it. You can’t keep it, but you can spend it. Once you have lost it, you can never get it back” (Harwey Mackay)

“O tempo é livre, mas não tem preço. Você não pode possuí-lo, mas pode usá-lo. Você não pode mantê-lo, mas pode gastá-lo. Depois de perdê-lo, você nunca poderá recuperá-lo” (Harvey Mackay)

Sublime Transcendência

“When you are able to see with no dust of knowlege on the mirror of your soul, when your soul is without any dust of knowledge, when it is just a mirror, it reflects that which is. That reflecting of that which is wisdom.” (Osho)

“Quando você é capaz de ver sem pó de conhecimento o espelho de sua alma, quando sua alma está sem pó de conhecimento, quando é apenas um espelho, isso reflete o que é. Reflete aquilo que é sabedoria. (Osho)

Se você pudesse resumir a “vida” em uma única palavra, qual palavra seria?

Antes desta viagem eu poderia resumir “vida” em “passagem”. Quando saí do Brasil com destino a Índia, tinha uma concepção muito diferente da concepção que tenho agora. De fato, nós seres humanos somos perecíveis, nossos corpos, memória tudo tem um fim, nosso tempo na terra é cronometrado. Uns partem antes da hora, outros vivem muito mais do que eles mesmos esperavam, mas o fato é que de alguma forma passamos uns pelas vidas dos outros.

“Quem eu sou?” e “Qual meu objetivo antes de partir?”.

No dia 30 de Dezembro, minha família indiana me levou para um passeio TRANSFORMADOR.

Gurudwara Bangla Sahib (Laila Sharma – Personal Memories) December, 30th – New Delhi / India

Gurudwara Bangla Sahib é em templo onde se presta culto ao siquismo, religião panteísta que ocupa o nono lugar do mundo em número de fiéis. Ele também foi um palácio habitado no século XVII pelo guru Har Krishan, que durante uma epidemia, deu água do seu poço a alguns doentes. Hoje, esta água é considerada curativa, atraindo numerosos peregrinos, e embora seja um lugar incrivelmente maravilhoso, minha experiência transformadora me aguardava no seu subsolo, longe da beleza do mármore, dos imensos tapetes no chão, longe do ouro e mais longe ainda das águas milagrosas.

Minha família e eu descemos várias escadas, percorremos um verdadeiro labirinto subterrâneo até que chegamos a este lugar. Umidade, dois tapetes gigantescos no chão (como estes tapetes vermelhos que os americanos usam na noite de entrega do Oscar) e entre eles um vão, um espaço. Pratos de alumínio empilhados, talheres numa bancada. “Pegue seu prato, sente-se ao meu lado no tapete. Eles virão para nos servir, observe o que acontece agora no seu interior”. (Disse Bharat ao me guiar).

Todos os dias, em vários horários, são servidas refeições para PESSOAS. e não estou falando aqui daqueles que passam fome ou necessidade, falo exatamente como escrevi: “PESSOAS”.

Seguindo a orientação, peguei meu prato de alumínio, minha colher, caminhei pelo tapete, passei por detrás de pessoas que já estavam ali sentadas comendo, encontramos o nosso espaço, e ao lado dele sentei. Não demorou muito, um homem com um caldeirão grande em sua mão veio até mim, colocou no meu prato comida e em seguida me serviu Roti (uma delicia de pão indiano). Ao começar a comer, olhei os pés do homem que sentava ao meu lado esquerdo, olhei para os meus próprios pés e também olhei para os pés do Bharat, e consequentemente para todos os pés que minha visão pode alcançar, todos descalços. Estávamos todos sentados, sem que ninguém pedisse, todos nas mesmas posições, todos comendo.

Com boas roupas e os pés limpos, o homem ao meu lado finalizou sua refeição, dando lugar à outra pessoa, que desta vez não tinha as roupas limpas e haviam calos em seus pés e mais uma vez olhando ao meu redor pude ver esta mesma cena se repetindo e repetindo ao lado de outras pessoas que ali comiam.

“Self-transformation is not just about changing yourself. It means, shifiting yourself to a completely new dimension of experience and perception”” (Sadguru)

“A autotransformação não é apenas mudar a si mesmo. Isso significa, mudar-se para uma dimensão completamente nova de experiência e percepção ” (Sadguru

Assim como o Brasil, e vários outros países, a Índia também tem suas grandiosas desigualdades. A fome também bate na porta de inúmeras famílias, tendo elas um lar para viver ou a rua como seu lar.

Não estamos aqui neste mundo apenas de passagem, estamos neste mundo para viver. Nossas vidas se entrelaçam aos comandos do criador e de acordo com o destino escolhido por Ele para cada um de nós. Quem sou eu?: Ainda não sei, e tenho consciência de que passarei esta vida inteirinha procurando a resposta para esta questão, pois a cada dia a antiga meu “Eu” se transforma, se reconfigura. É a metamorfose do amanhecer e a cada dia um novo nível é atingido. A vida é feita de ações, nossas, de outras pessoas e dos frutos que colhemos destas trocas enquanto envelhecemos. A vida é feita de escolhas, de experiências. Qual é o meu objetivo antes de partir?: Acho que jamais havia me permitido parar e pensar sobre isto, e hoje vejo quanto tempo perdi. Penso hoje naquilo que ficará de mim, e não falo aqui em nada de bens materiais, mas naquilo que desde meu meu primeiro contato com a índia tenho plantado dentro das pessoas fazem parte desta minha jornada, naquilo que aprendo, naquilo que ensino.

O mundo espiritual me abriu os braços neste dia. Vi a humanidade de forma horizontal, de forma geral. Não há diferenças entre mim, Bharat, entre o homem que sentou ao meu lado, entre Meenu, Tarun e até mesmo com você que está lendo este post. Unidade, este é o conceito de humanidade. Quando se compreende o que é isso, as janelas da alma se abrem para o conhecimento, para o respeito. O que nos falta? Equilíbrio. Se todo ser humano conseguir equilibrar-se internamente, não haverá desequilíbrio externo!

Pelas ruas de New Delhi

Poeira no chão, letreiros de lojas, promoções, pessoas nas ruas, carros e mais carros, motos e mais motos, ônibus, cores, cheiros, comida, delicioso “chai”, buzinas, buzinas e buzinas. Poderia descrever qualquer outra grande cidade com as mesmas palavras, mas dentro deste simples repertório de experiências de vida, até hoje nada se comparou a New Delhi.

É incrível como a nossa concepção de metrópole se transforma de acordo com os caminhos cruzados nesta cidade. New Delhi não é apenas a cidade do trânsito caótico; New Delhi é intensidade; é movimento!.

Dentro da cidade que nunca para, meus pés. Dentro de mim, curiosidade!

Os vendedores são muitos, os preços também. Promoções, pessoas comprando. Cartazes dizem: “Preço fixo” ou “Preço Final”. Negociação e um pouco de drama são requisitos fundamentais para que as compras sejam realizadas em valores mais acessíveis.

Por diversas vezes ouvi: “Não podemos baixar o valor”, mas bastava ameaçar ir embora que logo o comerciante tentava negociar novamente. Não entender o idioma local prejudica um pouco a negociação, mas com o passar dos dias a gente aprende.

“Life is a mistery. It can be lived. It can be known by living it. It is not a problem, it is a challenge. It is not a question, it is an adventure” (Osho)

“A vida é um mistério. Pode ser vivida. Pode ser conhecida vivendo-a. Não é um problema, é um desafio. Não é uma pergunta, é uma aventura” (Osho)”
(Family Memories – December 2019)

Não há nada que não nos chame a atenção, nada que não aguce a curiosidade. A vastidão presente da desigualdade nos ensina a olhar a vida com outros olhos. O simples se torna mágico, gera conhecimento e por assim ser, brilha como ouro.

Lar doce Lar

Em meus primeiros minutos com a minha família indiana, pude viver um momento bem descontraído, ficamos comparando nossas alturas e vozes. Esta era a primeira vez que nos víamos pessoalmente, anteriormente, nossos contatos sempre foram feitos por meio de mensagens e chamadas de vídeo no Whatsapp.

Tarun Sharma – Laila Sharma (Family Memories)
December, 28th – 2019
Indira Gandhi – Airport

Bharat, Meenu e Tarun são irmãos, meus guardiões e heróis. Indianos nativos, mas com cara de paquistaneses, e acreditem, até mesmo outros indianos os confundem, apenas percebem que são nativos quando começam a falar em hindi ou em punjab (idiomas locais). Extremamente generosos e prestativos, me receberam como membro da família e me deram não só a oportunidade de viver esta experiência em segurança, como também me proporcionaram todo o amparo necessário, além de me ensinarem a cultura familiar indiana.

New Delhi (Nova Delhi) é uma loucura! Um trânsito intenso (caótico). Uma pessoa por carro. Como eu disse no post anterior, a Índia é o segundo país mais populoso do mundo, isso significa: MUITOS CARROS!, mas os carros não andam, apenas as motos.

Nas principais avenidas, asfalto; nas ruas de bairro, terra; buzinas e mais buzinas; carros e motos quase se encostando; mão inglesa. Pegamos um metrô ainda alí no aeroporto e mais uma vez me deparei com a segurança armada da cidade. Em todas as estações de metrô, guardas armados, homens e mulheres. Detectores de metais e equipamentos de raio-x para realizar revista nas malas, mochilas e bolsas.

A modernidade do metrô me lembrou muito a “Linha amarela” do metrô da capital da cidade de São Paulo; e o sistema de linhas também é bem parecido: as linhas possuem nomes e pode-se migrar de uma para outra, no entanto, a cada “baldeação” é necessário pagar novamente.

Bharat Sharma – Laila Sharma (Family Memories)
December, 28th – 2019
New Delhi – India

Quando descemos na estação de destino, pegamos o bastante famoso “Riquexá”, mas como vocês podem ver no vídeo, Bharat me corrige, para falar “Iriquexá. Tratá-se de uma mistura de moto com taxi. New Delhi tem muitos destes.

Vivemos em um prédio, poucos andares, famílias grandiosas, uma rua sem muito barulho. Do lado de fora do portão crianças brincando, mulheres e homens em suas rotinas, “mercadinhos” em toda esquina, um templo religioso ao lado de casa e do lado de dentro calor humano, FAMÍLIA.

Bharat acha engraçado, mas gosto muito de repetir estes dados informativos, sendo assim, lá vai: “Após quase 24 horas de no ar, 2 oceanos, um continente no meio disso tudo e uma distância gigantesca”, eu só queria um banho e finalmente dormir esticada numa cama confortável. O banho eu consegui, mas dormir não. A cama é sim muito confortável, o que não estava confortável era o fuso horário, afinal de contas a Índia está há 8h30 à frente do horário de Brasília (capital do Brasil).

Meu organismo se atrapalhou completamente, meu corpo sabia que era noite no Brasil, mas os olhos e a mente compreendiam que era manhã na Índia. Na dúvida, ouvi meu estomago e fui tomar o café da manhã mais saboroso e forte que já tomei. Daal e Paratha (Lentilhas e uma espécie de pão Sírio recheado com purê de batata) acompanhado do famoso Chai (maravilha dos Deuses).

“There is a voice that doesn’t use words to listen” (Rumi)

“Há uma voz que não usa palavras para ouvir” (Rumi)

E esta voz me disse: “Você está em casa”!

Cruzando oceanos

“Life Begins where fear ends.” (0sho)

“A vida começa quando o medo acaba.” (Osho)

Brasil e Índia estão separados por dois oceanos, um continente e um trajeto aéreo de aproximadamente 24 horas de voo. Tenho medo de muitas horas no ar, e acredito que devido a distância não exista nenhum voo direto, assim sendo, minha conexão foi realizada no aeroporto de Addis Ababa (Etiópia).

Esta foi a minha primeira viagem falando inglês. A primeira viagem para tão, tão distante, e também a primeira viagem sozinha. Quando sai do aeroporto internacional de Guarulhos (São Paulo – Brasil) ainda me sentia confortável, pois podia ouvir os demais passageiros falando em português. A ficha só caiu quando realizei a conexão na Etiópia. Preciso confessar que senti dentro de um filme, para ser sincera me senti em “Um príncipe em Nova York”, isto porque neste aeroporto todas as pessoas “locais” estavam vestidas como os personagens do filme, roupas de pele de animais e adereços afro. Neste momento, tive a dimensão de como seria o futuro da viagem, ninguém mais falava meu idioma, era hora de me virar com o inglês aprendido aqui no Brasil.

Devido as condições ruins de tempo, meu voo com destino a esta conexão saiu com o atraso de duas horas da cidade de São Paulo, ou seja, uma conexão que deveria durar aproximadamente quatro horas, durou apenas duas. Para mim foi ótimo, pois estava ansiosa demais, não via a hora de pisar meus pés no solo sagrado indiano.

Após a conexão, voei por mais aproximadamente dez horas entre Addis Ababa (Etiópia) até chegar em New Delhi.

Descabelada, cansada, mais ainda assim ansiosa. O coração não se aguentava dentro do peito, até que em inglês eu pude entender quando anunciaram nos dispositivos de áudio do avião: “Recebemos autorização para pousar”. Manhã de 28 de Dezembro de 2019, cheguei!!!

Laila Sharma – (Personal Memories) / December, 27th – 2019 – Addis Ababa (Ethiopian) and December, 28th -New Delhi (India) 2019.

Após pegar as malas na esteira, o plano seguia como combinado, o que eu não contava era com as diferenças entre as regras aeroportuárias. Para conseguir a comunicação com a família que me aguardava foi difícil. Difícil porque dentro do aeroporto eu tinha apenas duas opções para conectar com o sinal de wi-fi disponível. A primeira opção era tentar logar na rede e conseguir o sinal de forma gratuita, no entanto, para logar no sistema, eu precisava inserir o número de um telefone local, e em seguida para concluir o cadastro eles encaminhariam um SMS para este mesmo número. O problema era, eu não tinha este chip em meu celular, sendo assim, como eu poderia receber o tal código? Ou melhor, como alguém poderia me ligar para passar este código sendo que meu celular estava sem rede por estar em outro país?… Arrastando a mala comigo, caminhei até um guichê de ajuda e neste guichê um funcionário me passou a senha milagrosa, finalmente consegui me conectar com o mundo ainda dentro do aeroporto.

Separação de Idiomas falados na Índia.

Ao passar pelo departamento de vistos, o choque linguístico mais uma vez se fez presente, na verdade este assunto revela mais uma curiosidade sobre a cultura indiana.

Este mapa ao lado não nos mostra os estados indianos, mas sim qual os idiomas falados nestas áreas coloridas, e como vocês podem ver, são muitos!!!

Nem todas as pessoas falam inglês, os cidadãos mais idosos por exemplo, podem até saber uma palavra ou outra, mas não se comunicam usando este idioma.

A acentuação das palavras, o sotaque é diferente do que aprendemos nas escolas de idiomas, precisei pedir para que o policial federal que conferia meus documentos repetisse para mim as informações e suas perguntas umas duas vezes, precisei também prestar bastante atenção, coisa que com o passar dos dias acabou tornando-se natural aos meus ouvidos.

Agora com autorização para sair do aeroporto, me restava a opção de esperar pela família que me adotou como membro na realização deste sonho, eu só não contava com a perda do sinal de wi-fi na saída do portão de desembarque e com a proibição das autoridades que me impediam de entrar novamente dentro das dependências do aeroporto, mesmo que meu objetivo fosse de apenas enviar as mensagens via whatsapp. Acontece que a Índia se localiza na divisa com o Paquistão (que na verdade já foi território indiano, sendo separado apenas quando a Índia fez-se independente da Inglaterra) e as ameaças de atentados terroristas são constantes, portanto, é extremamente cauteloso por parte dos indianos a entrada e saída de qualquer indivíduo seja isto em shoppings, aeroportos, templos e também em estações de metrô e de trem.

Nos olhares das pessoas do lado de fora do portão de desembarque eu procurava pelo rosto da minha nova família. Para aqueles que acham que na Índia não faz frio, acreditem, faz!. A temperatura de 4°C me fazia “bater o queixo”. As buzinas enlouquecidas e incansáveis não paravam, podiam ser ouvidas de longe, mulheres usando roupas coloridas, homens barbados, e crianças caminhando para lá e para cá. Neste momento tive a convicção: Meu sonho começa agora! O portal estava aberto, e eu pronta para entrar neste ciclo de felicidade e amadurecimento…

Do outro lado do mundo encontrei vida e sentido para a minha vida, do outro lado do mundo encontrei cores e sabores e entre as pessoas, encontrei a voz que me chamava pelo nome.

“Namaste, Laila! Welcome to India”

Laila Sharma (Personal Memories) December, 27th – 2019 / Guarulhos – SP (Brazil)
Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: